sábado, 5 de janeiro de 2013

Padre Brás

Mesa Virtual de Glosas I
(Em 28 e 31 de dezembro de 2012)

Padre Brás:

No dia que eu não faço
Um repente de improviso,
Meus olhos ficam sem brilho,
Minha boca sem sorriso
E fica faltando óleo
Nas molas do meu juízo.

Pedro Torres Filho:

Um poeta oleificado
Pela graxa do improviso
Deixa nós 'abestalhado'
Com uma cara de liso,
Chega a ser engraçado
Dizer que não tem juízo.

Zelito Nunes:

Poeta nessa virada,
Peço a Deus que lhe proteja
E quando você voltar
Vamos fazer uma peleja
Com muita gente aplaudindo
E muita grana na bandeja.

Padre Brás:

Sendo assim louvado seja,
Desse jeito vala a pena,
Pernambuco fica estreito,
Recife fica pequena,
Mesmo com tanto barulho,
Recife no mês de julho,
Mercado da Madalena.

Pedro Nunes:

Eu acho que vale a pena
Comprar logo meu ingresso,
Escutar o Padre Brás
Cantando e fazendo verso
Durante o mês de Santana,
Qualquer dia da semana
Vai ser um grande sucesso.

Meca Moreno:

Eu não faltarei, confesso,
Porque nos dois acredito,
O mundo estará atento,
A dupla tem gabarito,
Chegando com todo o gás,
Quero ver o Padre Brás
Na peleja com Zelito.

Pedro Nunes:

Penso que vai ser bonito,
Todos vão se divertir,
Um nasceu no Pajeú,
O outro no Cariri,
Zelito conta seus causos,
Brás declama, ganha aplausos
E a gente morre de rir.

Meca Moreno:

Iremos assim curtir,
Eu já estou ansioso,
Ouvir poemas e causos,
Eita negócio gostoso
Com Padre Brás e Zelito,
Que é um dobrado bendito
Num mundo mais amoroso.

Pedro Nunes:

Vai ser um dia pomposo
Num espaço tão pequeno,
Raios vão cair dos céus,
Os poetas têm veneno,
Mas vai ser melhor ainda
Ouvir a poética linda
Do vate Meca Moreno.

Zelito Nunes:

Sem querer ser presunçoso,
Não foi intenção minha
Provocar tantos poetas
Com minha verve fraquinha
Tanta gente se envolveu
E quase ninguém percebeu
Que o meu verso falta uma linha

Pedro Nunes:

Mano, a culpa não é minha,
Pois lhe ensinei a contar,
Se você não decorou
Pode ainda decorar
Uma tabuada daquelas
Que tinham as folhas singelas
Das cartas do beabá.

Pedro Nunes:

Prepare-se para escalar
Montanha que ninguém iça,
É poeta enquanto dorme,
No altar rezando a Missa,
Expulsa até Satanás
Esse tal de Padre Brás
Quando chega da Suíça.

Padre Brás:

Cheguei agora da Missa
E vi que a briga tá feia,
Zelito e Meca mais Pedro
É verso pra légua e meia,
Eu assisto admirado
E se fosse um delegado
Botava os três na cadeia.

Pedro Nunes:

Isso é uma proposta feia
Pra quem é elogiado
Denunciar à polícia
Para mandar um soldado
Prender poetas mindinhos
Só por causa de uns versinhos
Feitos para um exilado.

Padre Brás:

É que aqui do outro lado
Do Oceano, se a gente
Lê esses versos de classe,
Quase feitos de repente,
Renova a enfermidade
E a chaga da saudade
Volta a sangrar novamente.

Pedro Nunes:

Vou mudar o meu repente,
Trocar a minha toada,
Não quero virar o ano
Numa cela infectada,
Não é lugar de doutor,
Homem livre tem valor,
Um preso não vale nada.

Zelito Nunes:

Nessa noite da virada
Eu como bom brasileiro
Já enfeitei a latada,
Já varri o meu terreiro,
Peru e peixe de coco,
Bucho inchado e arroto choco
No primeiro de janeiro.

Pedro Nunes:

Isso é um desespero
De quem quer farrar demais
Quisera eu assistir
À Missa do Padre Brás,
Escutar o seu sermão,
Comer com moderação,
Pra romper o ano em paz.

Gregório Filomeno Menezes:

Quem não faz extravagância
Ao atravessar o ano
Pode até se sentir bem,
Levando a sério algum plano,
Mas se tudo der prefeito,
Garanto que esse sujeito
Não pertence ao gênero humano.

Pedro Nunes:

Talvez seja um tirano
Que maltrata inocente,
Mas pode ser uma pessoa
De alma benevolente,
Dessas que repartem o pão
Com criaturas que não
Tiveram a sorte da gente.

O clima aqui está quente,
Mas na Suíça é um gelo,
Padre Brás está sumido,
Mas em julho vamos vê-lo
A essa hora do dia
Deve estar na Sacristia,
Pela fé ele tem zelo.

É bom a gente benzê-lo
Quando voltar ao Brasil,
Onde ele está ninguém mata,
Aqui matam de fuzil,
É uma guerra sem nome,
Gente aqui morre de fome,
Gente lá morre de frio.

Meca Moreno sumiu,
Zelito e Brás foram embora,
Fiquei sozinho no Face,
Velei-me Nossa Senhora,
Abandonaram esta praça
Estão bebendo cachaça
O que vou fazer agora?

Melhor aguardar a hora
Do Ano Novo chegar,
Deus me livre que a seca
Em treze vá castigar,
É melhor cair na farra
Pra depois olhar a barra
Quando a manhã despontar.
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