quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio

Ivanildo
Quando canto vejo a negra
Claridade do luar
Vendo a flor colhendo beijos
Dos lábios frios do ar
E a praia enfeitando os fios
Do lençol verde do mar

Geraldo
Sinto a aurora brotar
No formato de miragem
Em cada curva da estrada
Há um leque de paisagem
Abanando as tranças verde
Dos cabelos da folhagem

Ivanildo
Dançando eu vi a imagem
Do filme de Deus coloca
Onde o sol por generoso
Cria, aquece dia, e foca*
É quem dá tudo de si
E nada recebe em troca

Geraldo
Quando o maio se coloca
É mais bonito o sertão
A floresta se ornamenta
De rosa, flor e botão
E as flores brancas à noite
Parece estrelas no chão

Ivanildo
O sopro da viração
Deixa impressão de perfume
Os últimos raios da tarde
Pincelam cristas do cume
Entregam crepúsculo negro
Aos faróis do vaga-lume

Geraldo
Há espirais de perfume
Na mãos cálidas do mormaço
As nuvens do firmamento
Se desmanchando em pedaço
Parece um leque de bruma
Na concha azul do espaço

Ivanildo
Terra que assiste o cansaço
Do passo do retirante
Quando as rajadas cruéis
De uma seca horripilante
Tange a poeira dos rastros
Do camponês emigrante

Geraldo
Pingo de orvalho brilhante
Na floresta da masquina
O pirilampo, um arcanjo
Da lanterna bentilina
A água cristal eterno
Na galeria divina

Ivanildo
Seguir de Deus a doutrina
É dever da criatura
Semeia grãos de virtude
E aguarda a safra segura
Plantando a semente boa
E colhe a espiga madura

Geraldo
Respeito as leis da altura
Na torre do esquecimento*
Viajo o barco dos anos
Com o seu carregamento
Pedras que são extraídas
Nas minas do sentimento

Ivanildo
E a voz do pensamento
Transforma o sonho em cadência
Cantando o lírio dos campos
Dos frutos, a culta essência
A substância abstrata
Nos sonhos da inocência

Geraldo
Onde não foi a ciência
Onde ficou a bonança
A viola é o piano
Que toco desde criança
Sonorizando saudade
Nos teclados da lembrança

Ivanildo
Nos planos que a rima alcança
Tendo a vida por irmã
De noite ilusão perdida
De dia esperança vã
Castelos de pedra hoje
Sonhos de areia amanhã

Geraldo
Na neve da cor de lã
Na minha ilusão de infante
Há um castelo de estrela
Nas barras do meu levante
Que não brilharam até hoje
Brilharão daqui por diante

Ivanildo
Vou voando a todo instante
Para alcançar outro império
As formas de um mundo novo
As luzes de outro hemisfério
Rompendo a marca invisível
Desse profundo mistério

Geraldo
Por ter notas de saltério
O improviso é um santo
Na vida corta as fronteiras
Em sonhos cresce outro tanto
Se transporta sem andar
E voa sem sair do canto

Ivanildo
Como um rugido de espanto
Do tiro da belonave
O fogo apartando a nuvem
O eco espantando a ave
Rompendo o sossego aéreo
Do infinito suave

Geraldo
Deus a ninguém deu a chave
Desse edifício perfeito
Mar gigante, terra enorme
Céu infindo, bosque estreito
Fez tudo e não veio ainda
Dizer porque tinha feito

Ivanildo
Do rio estuário e leito
Da fruta o tempo e a vez
Ano longo dia curto
Semana, estação e mês
Ele fez tudo mas pode
Desfazer tudo o que fez

Geraldo
Manda em tudo o rei dos reis
No raio que do céu desce
Tempestade de desaba
Terremoto que estremece
Em tudo está sua mão
E o homem não reconhece.

Ivanildo Vila Nova e Geraldo Amâncio.

- Quando canto vejo a negra* (Ivanildo cantou assim)
 - Na dor do esquecimento (Geraldo cantou assim).
- Sonhos de areia amanhã (Contribuição Grupo Epokhé pela intelecção, valeu!)
- Cria, aquece dia, e foca (Conforme entendi, com minhas dúvidas.)

3 comentários:

  1. "Tempestade que desaba/ Terremoto que estremece" é assim que ele canta! ;)

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  2. "Castelos de pedra hoje/ Sonhos de areia amanhã"

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    Respostas
    1. Mas, rapaz! Muito obrigado Grupo Epokhé!

      Meu LP tava um lixo. Incrível como uma palavra engrandece tanto a poesia né?

      Sonhos de 'areia'.. Coisa linda!

      Valeu demais. Grande abraço!

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