sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Obrigado meu Deus por ter me feito Nordestino, poeta e cantador!

Já nasci inspirado no ponteio
Nos bordões da viola nordestina
Vendo as serras banhadas de neblina
Com a lua imprensada pelo meio.
Mãe fazendo oração de mão no seio
Numa rede ferindo o armador
Minha boca pagã cheirando a flor
Deslizando no bico do seu peito,
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador!

Me criei com cuscuz e leite quente,
Jerimum de fazenda e melancia...
Com seis anos de idade eu já sabia
Quantas rimas se usava num repente.
Fui nascido nas mãos da assistente
Na ausência dos olhos do doutor
Mamãe nunca fez sexo sem amor
Papai nunca abriu mão do seu direito
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador!

Fiz farofa de pão de mucunã,
Me inspirei no velhinho do roçado,
O sertão é o palco esverdeado
Que eu ensaio as canções do amanhã...
Minha artista da seca é acauã,
No inverno, o carão é meu cantor,
Um imbu espremido é meu licor
E um juá eu não dou por um confeito,
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador!

Minha vida no campo foi liberta
Merendando café com milho assado,
Vendo a lua nas brechas do telhado
E o vento empurrando a porta aberta...
Um jumento me dava a hora certa
Já o galo era o meu despertador,
Meu mingau foi pirão de corredor
E eu cresci gordo e forte desse jeito,
Obrigado meu Deus por ter me feito
Nordestino, poeta e cantador!

João Paraibano

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